domingo, 14 de novembro de 2010

Abandono III

-Sabe Cristina....é Cristina né?...Então Cristina, antes de fazer isso eu quero te contar uma história e queria muito que você escutasse, tudo bem por você? Pode só balançar a cabeça, Cristina.

-.......

-Não, assim não Cristina, não foi assim que a gente combinou, lembra?Deixa eu contar a história e depois a gente continua.

-.......

-Então Cristina, quando eu comecei a fazer isso eu era um pouco mais novo,mas não via muito sentido pra minha vida sabe? Mas era legal (você não odeia quando as pessoas descrevem as coisas com essa palavra?), eu gostava de certas coisas.Você sabe do que eu gostava, Cristina?

-.......

-Não fica com raiva de mim só porque eu te faço perguntas, imagina que chato se eu não fizesse, o que seria desse momento? Não faz assim Cristina...

-........

-Tudo bem. Eu gostava de tomar umas cervejas por aí à tarde. Não fazia muita diferença se era um fim de semana ou não, o calor é sempre o mesmo. Eu também ia muito ao cinema, era muito bom, muito bom mesmo, os filmes eram muito bonitos e as pessoas pareciam excitadas com a possibilidade de assistir a uma boa história. Você não me acha estranho por reparar assim nas pessoas, acha?

-......

-Imaginei mesmo. Eu também gostava de ouvir o rádio, principalmente de ouvir as pessoas conversando, parecia que elas conversavam comigo. Quase ninguém conversa comigo.

-......

-Por quê o sarcasmo Cristina?

-......

-Bom vô continuar pra chegar logo ao fim da história, você deve estar entediada.

-.....

-Acontece que um dia eu encontrei um sujeito meio louco que dizia ser o meu Prazer. Achei que fosse uma piada de mau gosto, mas continuei conversando com ele, quase ninguém conversa comigo. Ele disse alguma coisa sobre estar me abandonando e que eu não iria sentir mais prazer mas que eu ia encontrar prazer nos outros.

-.....

-Pois é, estranho né? Mas aí como ele disse isso eu comecei a procurar, afinal ele me parecia ser um sujeito que entendia das coisas. Aliás ele foi a primeira pessoa em quem eu comecei a procurar, mas não tava lá, e eu procurei bem.

-.....

-Viu Cristina? Era isso que eu tinha pra te contar, agora eu vou procurar o prazer em você....

-.....

-Não se preocupa não, eu já fiz isso muitas vezes Cristina, prometo que eu vou procurar em cada canto.

-.....

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-Não, não adianta tentar gritar Cristina, a mordaça tá bem apertada, e se você desmaiar denovo eu vou ter que ligar o maçarico pra te acordar.....logo agora que eu tô sentindo que vou encontrar, em algum lugar aí dentro eu vou encontrar.....

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Telefone

-Alô.

-Alô, quem fala?

-É o Henrique

-Boa tarde seu Henrique, aqui quem fala é Júlia da central de relacionamento dos cartões Visa.

-Pois não Júlia.

-Estamos ligando para averiguar a situação do plano de faturas automáticas do senhor.

-Certo....

-É que nós vamos estar fazendo uma pesquisa de opinião dentro de algumas semanas e gostaríamos de saber se o senhor pode estar colaborando nesse período.

-Júlia, olha, eu sou um sujeito ocupado e ,assim, não quero parecer grosso ou nada mas esse tipo de coisa não é pra mim.

-Certo seu Henrique então a central Visa agradece e tenha uma boa tarde.

-Perae, fácil assim?

-Perdão senhor?

-É, vocês sempre enfiam uma promoção goela abaixo dagente. Dessa vez não vai ter não?

-Desculpe senhor, não estamos tendo nenhuma promoção no momento.

-Ah, ta certo então.

-Senhor Henrique...

-Oi

-Se o senhor quiser eu posso estar realizando a pesquisa nesse momento.

-Hmm tudo bem então.

-Então se o senhor não tem nenhuma objeção eu vou fazer algumas perguntas.

-Sem problemas

-Estado civil?

-Solteiro.....

-Profissão?

-Desempregado.

-Tá seu Henrique, eu sei que não é da minha conta, mas o senhor não disse ali em cima que era um sujeito ocupado?

-Era pra tirar você do meu pé Júlia. Você e esses gerundismos horrorosos que você vai estar utilizando.

-Poxa seu Henrique, que falta de consideração.

-Ta Júlia, me desculpe..............peraí, isso num era pra ser uma pesquisa de opinião, porque a gente tá tendo essa conversa?

-Desculpe seu Henrique, eu paro se o senhor quiser.

-Não Júlia, não é assim, pode continuar.

-Ai seu Henrique sabe o que é? Eu ando trabalhando demais....

-Imagino....

-Aqui no serviço a gente entra às seis da manhã e só sai às seis da tarde...

-Júlia.......

-Oi seu Henrique

-A pesquisa, Júlia.

-Ai é mesmo né seu Henrique

-Pois é, sou desempregado mas não sou desocupado né Júlia.

-Tá, desculpa seu Henrique, vamos continuar.

-Vai

-Que nota o senhor dá ao atendimento do seu gerente?

-Hmmmm, sete

-Que nota o senhor dá ao atendimento por telefone?

-Três.

-Quê isso seu Henrique! Três?

-É, eu dei três porquê você sabe o que é um gerundismo.Devia dar um zero por você saber e continuar fazendo.

-Nossa seu Henrique,grosseria heim.

-Quer ganhar dois Júlia?

-Tá bom, tá bom,vamos continuar.

.............................................................................................................................

-Pronto seu Henrique, acabou a pesquisa.

-Beleza, é só isso?

-É sim seu Henrique, o Visa agradece sua colaboração.

-Tá certo......Vem cá Júlia, será que eu podia te encontrar qualquer dia desses?

-Quê isso seu Henrique, tá me achando com voz de tele-sexo?

-Não é isso não Júlia, é que tinha um tempão que eu não conversava com uma mulher...

-Ah foi por isso então que o senhor puxou o assunto da promoção né?

-Pois é, mais ou menos...

-Olha seu Henrique, vô te dar um conselho

-Pois dê Júlia, tô precisando.

-VÊ SE PÁRA DE ALUGAR MINHA ORELHA QUE A OPERADORA DE TELEMARKETING AQUI SOU EU.

tu-tu-tu......

Abandono II

I

O homem com ar de malandro entrou na cozinha como se fosse íntimo da casa:

-Bom dia! O negócio é o seguinte, Lia: diferente da minha prima Consciência, que é cheia de não-me-toques e enrolação, eu não fico cozinhando o galo; eu sou o seu Amor e estou saindo do seu coração porquê eu dei um jeito de dar uma espiadinha no que vai rolar lá na frente e acontece que você tá fodida minha filha, fodidinha da silva.

O sujeito nem parecia respirar, descarregava uma frase depois da outra numa saraivada de informações incoerentes para Lia mas que pareciam fazer todo o sentido para ele e até serem bastante coerentes para um cara numa camisa florida e calções acima dos joelhos com uns óculos escuros de quem não quer muito dar bola pra ninguém.

Lia de alguma maneira não se importou com o fato de um total estranho ter invadido sua intimidade e se sentou ainda com uma xícara de café fumegando. De repente ela começou a fazer perguntas como quem tira dúvidas depois de uma palestra:

-Quem é você?

-Eu sou o Amor minha filha, Aquele com “Azão” maiúsculo sabe? Que fazia tudo dar certo nas histórias da sua infância e ainda hoje faz esse seu coração dar uns pulos maiores que o esperado. Sô eu, ao vivo e à cores.

-Tá fazendo o quê conversando comigo?

-Explica minha filha, você é muito devagar no esquema.

-Tô dizendo, eu num devia te controlar ou, sei lá, só sentir você? Quem disse que a gente conversa com o amor?

-Tá maluca minha filha? Sô eu é quem manda nesse circo de hormônios que você chama de cabeça, eu sou o manda-chuva no pedaço ,não importa o que digam a Consciência ou a Razão, aquelas estraga-prazeres. Aliás por falar nisso, pode me interromper a vontade sabia? É que eu falo muito. Mas e aí entendeu?

-É, eu saquei que é você e tal, o tal do amor e tudo mais, mas pra quê a visita? Até hoje você teve meio ausente né?

-Pois é. Foi sobre isso que eu vim conversar. Eu sou meio sumido assim porquê nem eu sei quando vou poder sair por aí fazendo uma boa farra, aí fica meio difícil, mas tem gente que me vê o tempo todo, não dá pra saber quem vai ter essa sorte.

-Ou esse azar....

-Iiiih, num azeda comigo não que sua chance de ficar sabendo o que vai rolar por muito tempo nessa sua vidinha de meia pataca depende da minha boa vontade.

-Caaara como é chato esse amor!

-Tá, fica caladinha aí e escuta. Como eu já disse antes de começar essa palhaçada de conversa, eu tô dando o fora.

-Hmmm como assim, vai embora sem nunca ter feito nada?

-Há, eu já vi o que vem por aí e num vai ser nada bonito, acredite em mim, eu tô te fazendo um favor garota.

-Tá mesmo, pode se mandar.

-Num tá nem curiosa pra saber o que eu vi? O que vai rolar nesse seu coraçãozinho mixuruca?

-Putz, se vai te mandar embora mais rápido, pode contar à vontade.

-Tá, o negócio é que eu dei um jeito de espiar como vai ser sua vida amorosa. E eu descobri que a carga horária é demais pra mim. Não to dizendo que você vai conhecer sete mil pessoas especiais, tô dizendo que vai conhecer só uma e ó, prestenção pra num parecer uma palhaça depois: NÃO VAI DAR CERTO, beleza? Aí você vai por a culpa em mim, xingar todas as formas de divindades possíveis e maldizer a coitada da Sorte por muito tempo. Aí eu resolvi poupar todo mundo dessa trabalheira e dar no pé. Já disse que você pode me interromper? Eu falo demais e esqueço as coisas meio rápido. Bom é isso.

-Uau, é muita coisa pra uma conversa na cozinha essa hora. Bom, tem alguma coisa que eu posso fazer?

-Encomendas. Eu vô pras Bahamas.

-Caramba, meu amor ainda é folgado.

-Quem disse que o amor não tira férias era um baita retardado, quem não tira férias é a razão. Bom, eu to de saída, té mais. Só pra avisar: não adianta me procurar em bicho de estimação, pornografia barata ou dieta milagrosa, quando eu vô eu vô mesmo minha filha, boa Sorte.

-Então tá né........

II

Lia sempre se culpou um pouquinho pelo seu jeito complacente: no dia em que conversou com o Amor, não perguntou se valia a pena tentar, quanto tempo ia durar ou até mesmo como era a vida sem ele. Teve que aprender com a experiência. Mas como não sabia o que era amar, seguiu viagem numa boa pela vida.

A todos os apelos de possíveis pretendentes, Lia sempre repetia as mesmas palavras: “Vá procurar quem te queira, não seja burro homem, eu não fui feita pra essas coisas, me deixe que comigo estou ótima.”. Mas tudo num ar de indiferença polida que rendia os homens e os deixava incapazes de odiar aquela mulher. Simplesmente entendiam, depois de muito tempo, que era uma mulher destinada à solidão.

III

Já quase não se lembrava da imagem do homem que a visitara dizendo ser seu amor. Só restava a forte lembrança do sentimento, da aura daquela conversa pousada na cozinha, na memória, quando a porta, agora outra porta em outra cozinha com outras lembranças, se abriu sem cerimônia.

-Lia...

Era o mesmo homem de tanto tempo atrás, nem mais velho, nem mais novo.

-Você? ....Deu saudade?

-Não vai nem me dar um oi?

-Que foi que anda caladinho agora? E por que só eu tenho cabelo branco nessa conversa?

-Sabe como é né, eu “não tenho idade”.

-Hmmm...e aí, passou uma boa temporada nas Bahamas heim?

-Poxa, não brinca com coisa séria Lia, não tá vendo que eu tô mal?

-Aham, e desde quando o amor precisa de psicóloga?

-Você não sabe a dificuldade que passa um amor sem coração, faz um mal danado, eu não fazia idéia, era burro naquela época.

-E antipático.....

-Tá..

-E egoísta...

-Tá bom, reconheço.

-Assim fácil?

-Poxa, quer que eu faça o quê? Vou beijar seus pés?

-Nah, coisa mais piegas, ainda mais pra um cara que nem você.

-Tem amor por aí que faz isso...nem te conto, é falso que só.

-Continua falando mal dos outros né......

-Foi sem quere Lia, sem querer.

-Tudo bem, depois que o gato comeu um pedaço da sua língua eu até que gosto da sua conversa, ficou mais adulto.

-Eu te disse que era burro naquela época, agora eu sei o mal que causei e.....

-Só se foi pra você mesmo, eu tô aqui numa boa.

-Mas é claro Lia, você nunca soube como seria se eu tivesse continuado aqui.

-E nem começa porquê não quero saber.Nem vem me confundir agora que já

pus a mesa pra um esse tempo todo.Passo muito bem, obrigada, e espero que você também passe muito bem, longe daqui.Se não se importa queria que você fosse embora sem me aporrinhar com perguntas ou trololó, tenho uma porção de coisa pra fazer e conversar contigo não é uma delas, meu filho.

IV

O amor foi embora outra vez, mas agora com um leve sorriso de quem sabe que deixou uma marca; Lia estava falando muito, como ele certa época fazia.

domingo, 19 de setembro de 2010

Abandono

-Bom dia José, sente-se.

-Obrigado.

-Você sabe porquê está aqui José?

-Eu não sei nem quem é você.

-Eu sou sua consciência José.

-Que coisa.Eu achava que minha consciência seria mais bonita;tipo loira assim, gostosa e meio maliciosa, acho que errei.

-Minha aparência não é das melhores, José, porquê sou muito vendida.Engordei um pouco nestes tempo de preocupações e contas atrasadas.E não é da sua conta se eu sou morena.Ou loura.

-O seu português pelo menos é muito bom, melhor do que o meu.Como é que pode?

-É sobre isso que nós vamos conversar hoje.

-O meu português?

-Não José, sobre o fato de você não ter aprendido nada durante sua penosa educação, apesar de ter contato com tudo aquilo.

-Quer dizer, a gente vai conversar sobre eu ter me fodido na escola?

-Também.

-O que mais além disso?

-A sua BURRICE José.

-Burro, eu?

-Acredite em mim, eu vivo dentro da sua cabeça.

-E o quê você vai fazer pra mudar isso?

-Eu, nada, não se pode mudar as conseqüências de maus governantes, sociedades apodrecidas e péssimas escolhas pessoais.Eu não vou mudar você.

-Então? A gente só vai bater papo, assim sem mais nem menos?

-Não José, eu estou aqui para comunicar minha demissão.

-Epa, peraí, você pode fazer isso?

-Você se surpreenderia em saber as coisas que posso fazer, e mais até das coisas que já fiz em sua cabeça.

-Tá, agora eu tô com um pouco de medo.

-Não precisa ter medo José, muitos já passaram por onde você se encontra.

-Como você sabe, se é só minha consciência? Isso não é meio que uma-pra-cada-um?

-Você quer dizer pessoal.E sim, cada um tem uma, mas nós nos comunicamos, nunca ouviu falar em consciência universal?

-Tá, calma lá que isso tá COMPLICADO PRA BURRO.Como eu vou me virar sem consciência?

-José, José, quantos homens você já conheceu sem consciência alguma?Ladrões, cafajestes, chefes de família, policiais, médicos, políticos e os piores deles: aqueles que são a mistura de vários tipos.

-Se você é tão esperta assim, pra onde você vai?

-Você já ouviu falar em física quântica, raios cósmicos?

-Eu nem sei como VOCÊ já ouviu falar nisso.

-É, você vai se dar bem José.Vai se encaixar direitinho no meio do resto deles.

-Eu posso te impedir?

-Não José, essa decisão foi tomada sem seu consentimento, como milhares de outras que o resto do mundo toma por você.

-Ei, peraí, eu tô ferrado!

-Até mais José, qualquer dia eu apareço para te fazer cometer suicídio.Aproveite até lá.

José pegou o carro, foi até uma padaria, comprou um litro de cachaça e seguiu bebendo até em casa.Aquilo se tornou um hábito, beber e não fazer nada.Também se tornou um hábito não permanecer em qualquer emprego por mais de quatro meses.Outro hábito de José era bater em prostitutas pagas para preencher um vazio que ele não sabia a razão, mas suspeitava.Começou também a aplicar pequenos golpes como se dizer eletricista e entrar nas casas alheias para furtar pequenos objetos sem muito valor como copos, panos de prato, bonés e perfumes baratos.

E no seu íntimo José ria da sua conversa antiga com sua consciência, ele havia se safado.Estava bem, afinal quem não faz um malfeito de vez em quando?Mas ele parecia até gostar da coisa.Ora, se eles estão aí com suas vidas feitas, nada mais justo do que eu mostrar a eles um pouco de dor, certo?E José sorria, os olhos pequenos na face tosca, uns olhos de criança que ainda não conhece a realidade.

Epílogo

Homem, 52 anos, encontrado morto com ferimento por arma de fogo na região temporal direita em residência de aluguel.Aparente suicídio.O dono do imóvel afirma que o locatário era um homem quieto que bebia muito nos finais de semana e tinha múltiplos empregos, aparecia pouco no imóvel e sempre pagava em dia, apesar de já ter pago o aluguel em espécie (relógios, perfumes, jóias).

Ao lado do corpo, foi encontrada a seguinte nota transcrita pelo perito:

“Eu sabia que ela ia voltar, a maldita.E continua morena.Que merda, eu que sempre gostei mais das loiras.”

sábado, 28 de agosto de 2010

Escrita

Mozart escreveu a voz de Deus em partitura; Da Vinci pintou o inefável em forma de sorriso; Camus, Goethe, Kafka, Hemingway, Exupéry cada um,a seu jeito, deu forma aos pensamentos que atormentam uma raça inteira. Até Brutus teve seu lugar ao sol:até os assassinos ocupam um panteão próprio de aparições históricas, folclóricas até. A sétima arte produziu imagens e sons capazes de transfigurar os sentimentos e imitar os estados da alma. Com tanta coisa rolando, o que sobrou para nós, aqueles que estão a contemplar todas estas explosões de acontecimentos? Restou talvez a sensação de que tudo já foi feito, e aquele velho conceito colegial de pós-modernismo vem à mente: tudo já aconteceu, qualquer novidade é uma história que já foi contada.

O leitor que me perdoe se eu começar a divagar no assunto da escrita, afinal,foi por isso que (imagino eu) ele se dispôs a perder seu tempo lendo os mirabolantes pensamentos do contista que aqui escreve. Não há muito com o que trabalhar, até mesmo esse bate-papo informal metaescrita-metaleitura já era e, se quem entrou nessa onda foi Machado, o que podemos nós, simples rábulas do ofício, fazer além de sairmos da frente e deixarmos essa possibilidade de lado?

Talvez aqui o leitor venha a opinar em sua própria mente: “mas esse sujeito é muito besta, só pega e escreve alguma coisa legal logo porra, foda-se quem já fez isso!”, onde eu com muito prazer concordaria, não fosse o espírito autocrítico extremado na cabeça do contista, inculcado por anos de questionamento constante e uma criação filha única, mas a gente entra no assunto de família em outra oportunidade (sim, esse é o contista adiando o tema).

Então existe aí uma autocrítica, mas além disso um conceito muito pouco (e mal) explorado na formação colegial do cronista, que é a idéia da crítica literária: o pouco que ouvi falar em crítica literária fermentou uma idéia de homens gordos e suarentos com rostos de cera e colônia barata cheirando a funcionalismo público que escrevem obras inteiras sobre obras inteiras e o aluno é obrigado a aceitar a opinião alheia, mesmo quando se trata de um assunto tão subjetivo como a leitura de um livro.Talvez tenha sido a falta de perguntarem ao contista “você gostou desse livro? Me fala um pouco sobre ele” e aí quem sabe dar um pouco de vazão ao pensamento.

Especulando

Você leitor, nunca sentiu que talvez fosse somente a falta de uma perguntinha besta desse tipo sobre qualquer assunto que tenha te tornado quem é nesse instante? Não necessariamente para a formação de um trauma ou um conceito negativo, mas talvez uma daquelas reviravoltas da vida que vêm em forma de pergunta ou conversa inesperada na fila do banco, na padaria ou em qualquer lugar. Talvez o excesso de mutismo coletivo que vem rolando por aí vem impedindo muita vida de acontecer.

Voltando aos livros,já vimos que conversar com o leitor é velha-guarda (apesar da insistência do contista).Outra coisa que não dá pra fazer sem uma dose de sentimentalismo prolixo é falar do que já aconteceu na vida. Digo isso por vários motivos: primeiro que não deu tempo de acontecer muita coisa da vida do contista afinal 21 anos não é lá tanto assim. Depois,o que aconteceu não foi tão digno de nota assim, digo,todos nós achamos que nossas experiências são as mais intensas, nosso amor o maior do mundo, nossas idéias as mais corretas e nossos sonhos os menos imbecis quando se é novo assim. Se um sujeito vai à guerra, escreve sobre isso; se já foi ou ainda é pobre, escreve isso; se sacou alguma coisa e acha que tem cara de filosofia, escreve isso; mas a maioria de nós simplesmente não sacou nada, não foi à guerra e daqueles que são pobres, poucos tiveram a oportunidade de educação para escrever algo.

Agora fugindo um pouco do assunto profundo do parágrafo anterior, um motivo pessoal do contista (e até meio besta pra ser sincero) pra não escrever tanto quando gostaria é o computador (o leitor foi avisado da reviravolta de assunto): é um porre escrever teclando nessa porcaria minúscula chamada laptop. Como alguém consegue trabalhar numa coisa dessas? Sempre que penso em laptop me vem à cabeça pessoas que trabalham horas num cubículo e acumulam tantas coisas que são obrigadas a comprar um destes pedacinhos de plástico e saírem por aí digitando escravizadas. Mas também existem as pessoas que usam para estudo, faculdade, pesquisa, aí até que faz sentido. Ah e as pessoas como o cronista, enjoadas o suficiente para reclamarem sobre o que ninguém mais pára pra pensar e imbecis o suficiente para continuar fazendo a mesma coisa.

Bom, deu pra sacar que não dá pra escrever muita coisa além do que já foi. O leitor pode reclamar que só exploramos duas facetas do que é escrever, e com razão, mas as outras coisas sobre as quais nos inclinamos a escrever são todas derivadas do que já discutimos e ruminamos. Sendo assim o cronista conclui o texto dizendo que, quando não há muito sobre o que escrever, escreva sobre não ter o que escrever. Funcionou com você, leitor que veio até aqui nessa mistura de desabafo com falta de assunto e um pouco de reflexão.

A Medida

O homem certa vez foi a medida de todas as coisas.Hoje todas as coisas são medidas pelo medo.Só quando o coração bate sem medo é que as portas da existência se abrem por completo.Há o medo do julgamento:os olhos alheios,juízes constantes,tolhendo sabe-se lá quantas atitudes,falas,opiniões,existências.Apesar de julgarem,todos com um medo mútuo,surdo,um tipo de terrorismo coletivo voluntário e muito,muito bem velado.Há também o medo de morrer.Todos têm um pouco,não se pode negar.Deixar de existir,não ter feito nada digno de um citação no rodapé da história, medo de desaparecer;mas não vamos todos? E aí começa o medo de viver:poucos de nós teremos vidas marcantes para toda a humanidade,isso é um fato.Mas muitos de nós viveremos com essa esperança de grandiosidade inculcada até o derradeiro suspiro.Mas amar alguém,correr atrás de um sonho,não é aí que está escondida a verdadeira grandiosidade? A memória coletiva dos homens é vasta,mas feita de lembranças gravadas em pedra;A memória de um homem é breve,mas sempre será gravada no coração.E já que estamos no assunto do coração,e o tal medo de amar?Alguns julgam o amor como o último e mais importante objetivo de suas vidas,e talvez não estejam errados,mas é preciso agir.Sonhos jamais batem à porta,quem dirá o amor.Nesse assalto ao coração alguém sempre se machuca,para o bem ou para o mal.Mas também,a gente sempre fica com a sensação,por mais vaga que seja,de que valeu a pena;valeu a pena morrer tentando.Não adianta ficar parado esperando: esperar que parem de te julgar,esperar que a vida aconteça sozinha,esperar que os formulários se preencham,esperar o dinheiro entrar na conta do banco,esperar alguém te amar.Até a paixão precisa do primeiro olhar,o medo do primeiro olhar.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Culpa

As fissuras desta terra
culpa este meu coração
por bater forte demais

As enchentes destes mares
culpaestes meus olhos
por deitarem lágrimas demais

As pestes da criação
culpa esta minha voz
por praguejar demais

A fome destas nações
culpa esta minha mente
por hesitar demais

O vazio nos homens
culpa estes meus sonhos
por serem tão somente
sonhos.